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Ziraldo fala ao V&A sobre meninas, mulheres, Chico Buarque e Pasquim
24 de janeiro de 2017 às 07:38

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A repórter começou a entrevista levando um carão do Ziraldo. Não havia lido o livro Meninas no dia da sessão de autógrafos aqui em Fortaleza. Foi semana passada, na livraria Saraiva do shopping Iguatemi. Mas talvez tenha sido melhor fazer o caminho inverso e conversar com o autor antes mesmo de abrir seu novo trabalho (agora, devidamente lido). “Os meninos são dos planetas. Mas as meninas são das estrelas”, resumiu o autor no início da conversa.

Ziraldo, com suas sobrancelhas brancas e arrepiadas e quase sempre usando um colete por cima da camisa social, vive no imaginário de gerações de crianças que leram histórias do Menino Maluquinho, da turma do Pererê, do Jeremias, do Vito Grandam e de tantos outros personagens inventados pelo mineiro.

Durante os eventos que o escritor costuma participar nas mais diversas cidades do País, ele conta que surgiu o questionamento de uma menina sobre o motivo pelo qual só falava sobre meninos em seus livros. “Ah, eu entendo de menino, eu fui menino”, tenta explicar. Mas do questionamento surgiu a missão de escrever sobre o assunto. Foi lançado, então, o livro Menina das Estrelas, em 2009.

Para escrever e ilustrar a obra mais recente, Ziraldo conta que leu bastante sobre Alice no País das Maravilhas, inspiração bem evidente nas páginas do livro

Agora, 8 anos depois, veio o Meninas. Para escrever e ilustrar a obra mais recente, Ziraldo começou a ler sobre o tema. E, principalmente, sobre Alice no País das Maravilhas, clássico de Lewis Carroll. A influência fica bem evidente nas ilustrações e nas linhas do livro, em que muitas meninas são a própria Alice. “Carroll explicou o que é o ser feminino, o que é a entidade feminina. Então, se você entender Alice, você entende a mulher”, aposta.

No prefácio, Ziraldo conta que tenta explicar a menina nas páginas que sucedem. Uma das netas dele, também chamada Alice, tem uma coleção com mais de cem exemplares diferentes da obra de Carroll. E ali foi um dos pontos de partida da pesquisa.

O resultado são especulações do autor sobre o universo feminino infantil, são teorizações que resultaram de uma imersão. E foi difícil. “Porque de menino eu entendo profundamente. Menina eu especulo.” A especulação masculina sobre o que se passa no pensamento feminino é algo presente na obra de outros artistas brasileiros, como Chico Buarque, que canta Teresinha, Carolina, Geni, Nina, Joana Francesa, as mulheres de Atenas e de tantos outros países.

“Você repare que ele, o Chico, vai muito em cima do sentimento do ser humano. Tanto é que quando ele faz uma canção em que a mulher está falando, ele canta mantendo o gênero. Ele fala o tempo todo como se fosse mulher. Agora, eu acho que o Chico, em vez de questionar a mulher, ele entendeu”, especula.

Boa travessia

O Ziraldo que as crianças conhecem há gerações é um cara cheio de histórias vividas e não apenas as inventadas nos livros. Os caminhos da vida e da profissão fluiram para que ele se dedicasse à literatura infantil. Mas, além de escritor e desenhista, ele é cartunista, chargista, cronista e jornalista. E uma das marcas que carrega até hoje é ter sido parte do Pasquim. Um grande periódico jornalistico-literário-boêmio que se posicionou fortemente contra a ditadura militar.

Aos 84 anos e com uma lembrança vívida sobre aqueles tempos divididos ao lado de Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Millôr Fernandes e tantos outros parceiros, Ziraldo define: “foi uma boa travessia. A gente era igualzinho a uma cachoeira, igualzinho a uma queda d’água.”

Durante a entrevista na livraria Saraiva, na fila de fãs que já se formava próximo à mesa onde Ziraldo iria autografar o novo livro, um senhor com seus cabelos brancos gritou sorrindo e acenando: “tem alguma coisa do Pasquim aí hoje?”, ao que o escritor respondeu “ih, esse é na outra sessão.” E o rosto do entrevistado se abriu em um largo sorriso. “O Pasquim deu sentido à luta da gente”, definiu, logo depois da intervenção.

Décadas depois do Pasquim e após muitos livros lançados, o pai do Menino Maluquinho segue produzindo para os mais jovens e até acredita que o seu personagem mais emblemático virou um cara legal. “Acho que ele (o Menino Maluquinho) cresceu e virou um cara legal. Tem um certo compromisso com a vida. Eu acho que a vida é uma dádiva. Então, você deve procurar tirar o máximo de proveito disso tudo.” Mas ele jura que não tem nada de autobiográfico em seus personagens.

O Povo

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