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Casos de tuberculose crescem em mais da metade das cidades do CE
24 de maio de 2019 às 08:37
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Uma doença que surgiu há milhares de anos e possui uma trajetória evolutiva próxima a dos seres humanos. A tuberculose, temida – e letal – nas décadas de 1950 e 1960 no Brasil, ultrapassou barreiras do tempo e ainda está presente em várias cidades cearenses. Dos 184 municípios do Estado, mais da metade teve aumento no número de casos em comparação aos dois últimos anos.

Os acréscimos mais significativos ocorreram em Redenção, Icapuí e Tamboril, com 900%, 650% e 500%, respectivamente. Os dados foram divulgados pelo Núcleo de Vigilância Epidemiológica da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará. Há dois anos, Redenção registrou apenas um caso da doença. Em 2018, saltou para dez. O aumento de 900% na enfermidade causada pelo bacilo de Koch – ou Mycobacterium tuberculosis – ligou o alerta na cidade do Maciço de Baturité. Em Icapuí, o cenário é semelhante. O número de casos confirmados passou de dois para 15 entre os anos de 2017 e 2018. A adição de 650% põe o Município com incidência acima do preconizado pelo Ministério da Saúde, que é de 10 casos para cada 100 mil habitantes. Conforme análise do Núcleo de Dados do Sistema Verdes Mares, o índice em Icapuí está oito vezes além do aceito pelo Ministério.

Em Iguatu, na região Centro-Sul do Estado, os números dobraram entre 2017 e 2018. No ano passado, foram confirmados 20 casos. Antônia Gomes Magalhães faz parte desta estatística. A iguatuense de 61 anos descobriu a doença após ficar 20 dias sem voz. A filha conta que no início, os médicos diagnosticaram a doença apenas como uma gripe. “Ela começou a tossir e depois foi perdendo a voz. Quando fomos ao médico, ela foi diagnosticada como se estivesse apenas gripada”, relatou Soraia Magalhães.

Após três semanas seguidas sem conseguir falar e com quadro de perda de peso, a família de Antônia Gomes decidiu procurar outro médico. O diagnóstico, desta vez, foi diferente – e mais grave. “Ela estava com uma mancha no pulmão. Estava com tuberculose”, disse Soraia, lembrando que a mãe chegou a pesar, em abril do ano passado, 42 kg. “Ela estava muito debilitada”.

A coordenadora do Programa da Tuberculose do Estado, Sheila Santiago, explica que diagnósticos equivocados, como o que ocorrera com Antônia Gomes, ainda são bastante comuns. “Muitas pessoas acabam nem procurando o médico por achar se tratar apenas de uma gripe”, destacou.

Silenciosos

Santiago acredita que “parte deste aumento apresentado nos dois últimos anos está diretamente ligada ao descobrimento de casos que antes eram silenciosos, isto é, existiam, mas não se tinha um diagnóstico que apontasse a tuberculose”.

Ela explica que no ano passado, a Secretaria da Saúde do Estado intensificou programas de treinamentos e capacitações para ajudar a identificar com maior rapidez o paciente com tuberculose. “Com isso, detectamos diversos casos silenciosos”, destacou. O prejuízo para o diagnóstico errado ou tardio, conforme explica Sheila Santiago, é importante para evitar a contaminação de outras pessoas. “Cada paciente que tenha tuberculose pode infectar entre dez a 15 pessoas a cada ano”, alertou a coordenadora.

Preocupação

O médico infectologista e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Anastácio Queiroz, externa preocupação com o alto número de casos da doença. “Costumamos analisar o quadro da década e, observando este período, 2018 foi o ano que apresentou mais casos confirmados. São quase quatro mil”, descreveu.

O especialista vai além. Cerca de 30% dos infectados no Ceará não tratam a doença conforme devem. A cura, portanto, não é alcançada. “Estamos falando de um universo de mais de mil pessoas que têm a bactéria e não estão em tratamento. Enquanto isso, estas pessoas são transmissoras em potencial da tuberculose”, alerta o médico, ao demonstrar a importância da não interrupção do tratamento que dura seis meses e tem a medicação ofertada gratuitamente e de forma exclusiva pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Desafios

O autônomo Manoel Custódio Dias Silva integra o grupo dos que abandonaram o tratamento antes do fim. Residente em Redenção, cidade com maior aumento de casos, ele começou a tomar a medicação em dezembro do ano passado. Dois meses depois, interrompeu por julgar “já estar bem”. “Eu tinha muita tosse. Cheguei até a cuspir sangue. Mas quando vi que já estava bem melhor, parei de tomar os remédios”, confessa. As consequências por ter contrariado as recomendações médicas foram severas. Manoel teve piora no quadro clínico e sua esposa, de 32 anos, também contraiu a doença. “Não sei se ela pegou de mim, mas o fato é que agora somos dois infectados dentro de casa”, conta.

Anastácio Queiroz alerta que um dos maiores desafios para a diminuição dos índices da doença e até da sua erradicação é não terminar o tratamento. “O paciente tende a abandonar logo que cessam os primeiros sintomas”.

As dificuldades que surgem a partir da interrupção são inúmeras, como o desenvolvimento da resistência da bactéria à medicação e o retorno da doença de forma mais agressiva, podendo levar ao óbito.

“Os doentes devem ter consciência de que a transmissão se dá pela tosse, no ônibus, no trabalho, em casa”, acrescenta Queiroz.

Além da continuidade no tratamento, especialistas sinalizam ser vital o diagnóstico no estágio inicial da doença. Para o médico Aier Adriano Costa, o diagnóstico precoce é fundamental, pois a transmissão da tuberculose só ocorre enquanto o indivíduo estiver eliminando bacilos. Mas com o início do tratamento adequado, a contaminação tende a diminuir gradativamente e, após 15 dias de uso dos antibióticos, chega a níveis baixíssimos, quase insignificantes.

Queiroz adverte ainda a necessidade de um diagnóstico correto tão logo surjam os primeiros sintomas. “É uma doença que tem semelhança com outras, por isso a importância de uma insistência do médico e do paciente a fim de obter um diagnóstico assertivo”. Caso estes desafios não sejam superados, observa o especialista, será difícil erradicar a doença até o ano de 2035, conforme meta da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Vamos prosseguir o tratamento até o final. Entendemos da pior forma possível a importância de seguir até o fim”, reconhece Manoel Dias.

CASOS

Diário do Nordeste

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