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Machado de Assis é o maior humorista brasileiro da história, diz estudioso
5 de agosto de 2016 às 17:00
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“Creio que não seria polêmico afirmar ser ele o maior humorista brasileiro de todos os tempos”, aponta Flávio Moreira da Costa, o organizador da antologia “O Melhor do Humor Brasileiro”, recém-lançada pela Companhia das Letras, em determinado momento do livro. “Ele”, no caso, é Machado de Assis, o autor mais citado no volume, nome amplamente reconhecido pelo humor fino e olhar irônico e sagaz.

“O Melhor do Humor Brasileiro” reúne desde relatos e poemas anônimos que datam de antes dos portugueses colocarem os pés por aqui, passando por trechos de romances clássicos de nossas letras e até escritos de autores contemporâneos. O foco é claro: encontrar nos registros o olhar crítico, irônico e gozador dos artistas em questão. “A quantidade de material encontrado e o humor dos índios, que é um campo ainda a ser pesquisado, pois só dei uma pequena amostra dele”, diz Flávio sobre os aspectos que mais lhe surpreenderam durante os cinco anos de pesquisa para organizar o volume.

A obra começa registrando um canto canibal de índios tupinambás que viviam em torno da baía de Guanabara e passa por outros registros da cultura indígena e do relato popular até chegar em Gregório de Matos (nasceu em 1636, morreu em 1696), o primeiro autor a aparecer no volume e que Flávio define como “abusado” e “irreverente”. É dele, por exemplo, o seguinte verso: “Não é fácil viver entre os insanos,/ Erra, quem presumir que sabe tudo,/ Se o atalho não soube dos seus danos./ O prudente varão há de ser mudo,/ Que é melhor neste mundo, mar de enganos,/ Ser louco c’os demais, que só, sisudo”.

Avançando pelas páginas, desfilam nomes conhecidos do grande público: José de Alencar, Gonçalves Dias, Raul Pompéia, Aluísio Azevedo, Rui Barbosa, João do Rio, Lima Barreto, Noel Rosa, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta, Millôr Fernandes… de todos esses o organizador conseguiu pescar ao menos um repente bem-humorada para incluir na antologia.

Ao comentar a obra, Flávio explica que há uma enorme variedade nas características do humor feito pelos autores brasileiros. “Pode haver semelhanças aqui e ali, mas respeitei as individualidades, como seria de se esperar”. O antologista, aliás, sequer acredita que exista algum tipo de comicidade inerente ao fato dos escritores estudados terem nascidos no mesmo país – ou território, já que parte dos textos datam de antes da ideia de Brasil ter sido concebida. “Sou rebelde a esse tipo de definição. Não acredito em humores nacionais. O humor é uma característica do ser humano”.

Flávio optou por dividir a obra em quatro recortes históricos (humores iniciais, coloniais, imperiais e republicanos) e explica que o critério para escolher os textos que entrariam no volume foi essencialmente a qualidade e a representatividade. “Faço antologias há décadas e fiz várias de humor. Fui crítico muito tempo e acho que isso e os trabalhos anteriores me dão crédito para que eu perceba a qualidade deste ou daquele texto”, diz ele, que já organizou 30 reuniões do tipo, como “Os Cem Melhor Contos de Humor da Literatura Universal” e “Os Melhores Contos da América Latina”.

Dentre os autores contemporâneos que passaram pelo crivo do organizador estão Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Verissimo e Antonio Prata, nome mais novo do livro, de quem registra a crônica “Gênesis, revisto e ampliado”, na qual o escritor repassa a história de Adão e Eva. “Como a antologia tem um viés histórico, isto é, começa lá atrás com os índios e a cultura popular, e atravessa séculos, tinha de acabar em um valor novo, que eu julguei ser o Antonio Prata. Poderia ser outro? Sim, mas eu tinha de escolher”, explica Flávio.

E, voltando ao começo da matéria, se o volume de material encontrado por Flávio foi grande, ele já prepara um segundo volume da obra? Não. “Daria uma outra antologia, que, aliás, não pretendo fazer”, antecipa o estudioso.

Natelinha

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