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Dono do avião que levava Chape, piloto queria voar com a seleção brasileira
1 de dezembro de 2016 às 12:40

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Miguel Quiroga, piloto do avião que caiu nesta terça-feira levando jornalistas, jogadores e dirigentes da Chapecoense, era também um dos dois sócios da microcompanhia aérea Lamia, que tinha apenas 15 funcionários – entre parentes e amigos. Depois do acidente, restaram só 8.

Depois de tentativas frustradas de entrar no circuito de voos comerciais para África e Europa, sua empresa se especializou em transportar times de futebol em voos fretados – entre os clientes estão seleções (Bolívia, Argentina e Colômbia) e times sul-americanos (como o Nacional da Colômbia, o Olímpia, do Paraguai, e a própria Chapecoense, que já havia usado os serviços da Lamia em outubro).

“Há dois meses, ele me procurou pedindo para eu intermediar um contato com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), porque ele tinha interesse em transportar mais times, inclusive a Seleção Brasileira”, contou Osvaldo Quiroga, primo do piloto, em entrevista por telefone à BBC Brasil.

Quiroga foi procurado porque tinha contato com ex-jogadores da seleção, mas conta que a negociação não chegou a se concretizar. “Infelizmente não deu tempo.”

À reportagem, Gustavo Vargas, diretor-geral da companhia e amigo de Miguel, confirmou o foco em times de futebol e disse que o avião que levava a equipe brasileira para Medellín, na Colômbia, estava decorado com escudos e flâmulas da Chapecoense.

“Para cada time que levávamos, personalizávamos o avião. Colocávamos o escudo e símbolos para tornar a viagem mais agradável.”

Ele nega boatos de que a empresa praticasse preços baixos para ganhar competitividade no mercado de voos fretados.

“Nosso serviço é um pouco mais caro, mas é mais rápido”, diz Vargas. “Há muitas razões (para os times voarem com a Lamia). A equipe pode ir e voltar no mesmo dia, no horário que quiser. Podemos chegar a locais onde não há voos regulares. Podemos fazer quantas escalas forem necessárias.”

Família de aviadores

Aos 36 anos, Miguel Quiroga, conhecido pela família como Micky, havia tido a terceira filha há três meses. Vivia com a mulher e os filhos (além do bebê, um menino de 13 anos e uma de 9) em uma casa de classe média no lado acreano da fronteira com a Bolívia.

“Somos uma familia grande, meu avô vinha da indústria aeronáutica, era encarregado da Lloyd Aereo Boliviano (companhia aérea extinta em 2007)”, conta o primo.

“O pai dele, Eduardo, também foi piloto e sofreu um acidente que o impossibilitou de continuar voando. Mudou-se para o Brasil para se recuperar.”

Segundo o familiar, o interesse de Micky pela aviação foi fruto das conversas familiares. “Ele estudou em colégio militar na Bolivia, fez faculdade na Força Aérea Boliviana, onde virou piloto e adquiriu o grau de capitão”, relata.

Antes de se tornar sócio da Lamia, o piloto havia montado uma escola de aviação, onde era instrutor. “Era a paixão dele a vida inteira. Quando surgiu a oportunidade de comprar uma empresa aérea, ele aproveitou para adquiri-la.”

Visto como herói e vilão, Quiroga é alvo de especulações nas redes sociais. Durante a entrevista, o primo pede respeito ao luto dos familiares.

“Falam que ele demorou para informar sobre falta de combustível para não receber multa. Ora, nenhum piloto vai expor a própria vida, nem a das pessoas que está carregando. Não faria sentido colocar a própria vida em risco, ele havia acabado de ser pai.”

“Os boatos ferem a família”, diz Osvaldo Quiroga.

“Um amigo de rede social chamou meu primo de mafioso. Ele nem o conhece. O conteúdo das caixas-pretas nem foi divulgado.”

Avião

Em 2014, a empresa foi comprada de um empresário venezuelano por Micky e um amigo, o também piloto Marco Rocha Venegas, e conseguiu licença para operar na Bolívia em julho do ano passado.

A empresa original é cercada de polêmicas. Foi criada na Venezuela em 2010 pelo empresário e suposto lobista Ricardo Albacete Vidal, com parte do financiamento vindo de empresas chinesas.

Em cinco anos, a Lamia Venezuela tentou iniciar suas operações em dois Estados do país, sempre sem sucesso.

Tanto Vidal quando o diretor Gustavo Vargas afirmam que hoje não há qualquer vínculo com a antiga Lamia venezuelana.

“Temos capital 100% boliviano”, diz Vidal.

O avião Avro RJ85, que caiu perto de Medellin e deixou 71 mortos e seis feridos, era o único em funcionamento da companhia.

“Temos outros dois, que estão em manutenção e nunca foram usados”, disse o diretor à reportagem.

À BBC Brasil, o dirigente diz não ter ideia sobre as causas do acidente e afirma que empresa tomava todos os cuidados.

“Já havíamos feito um voo de Santa Cruz de la Sierra até Medellin sem problemas. Nunca tivemos nenhum acidente.”

Combustível?

A análise das caixas pretas do voo ainda não foi divulgada por autoridades colombianas. Falta de combustível e pane elétrica são os principais pontos de especulação, a partir de áudios entre o piloto e a torre de controle do aeroporto de Medellin.

A autonomia do quadrimotor Avro RJ-85 era de cerca de 3 mil quilômetros, praticamente a mesma distância entre as cidades de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

Para especialistas, é pouco usual que autoridades permitam um voo de uma aeronave cujo autonomia é equivalente à distância percorrida entre os pontos de partida e de chegada.

 Uol
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