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Vazão de hidrelétrica era maior quando Montagner se afogou
30 de setembro de 2016 às 08:41
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Na hora em que o ator Domingos Montagner morreu, em 15 de setembro, a vazão da hidrelétrica de Xingó (SE), próximo do local do acidente, era cerca de 12% maior do que na hora anterior.

É o que mostra um documento divulgado pelo site The Intercept Brasil na última quarta (28).

A primeira informação sobre o afogamento do ator chegou aos bombeiros às 13h56 daquela quinta, o que sugere que o acidente tenha acontecido pouco tempo antes. De acordo com dados da Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco, administradora da usina), na faixa entre 13h e 14h, o fluxo de água liberado pela hidrelétrica de Xingó, a 2 quilômetros rio acima da Prainha, subiu de 814 metros cúbicos por segundo (m³/s) para 913 m³/s. Às 15h, o volume atingiu o ápice do dia, chegando a 970 m³/s. Nas horas seguintes, houve redução gradativamente.

O aumento no fluxo de água é realizado nos horários de pico do uso da rede elétrica para fornecer mais energia. Com isso, a correnteza aumenta rio abaixo.

ALTERAÇÕES

A vazão da hidrelétrica de Xingó tem sofrido alterações durante 2016.

No início do ano, uma liminar estabeleceu vazão mínima liberada pelo reservatório de Xingó, entre Sergipe e Alagoas, em 900 m³/s. Expedida pela 9ª Vara da Justiça Federal em Própria (SE), a decisão fazia parte de uma ação civil pública movida por colônias de pescadores do Estado, que alegavam prejuízos socioeconômicos devido às frequentes reduções no Baixo São Francisco.

O novo limite mínimo de 900 m³/s foi autorizado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e, desde o fim de fevereiro, vinha sendo praticado a contragosto pela Chesf —maior vazão significa esvaziamento do reservatório, o que pode comprometer o abastecimento da região durante períodos de estiagem; por outro lado, há aumento do fluxo rio abaixo, favorecendo pescadores locais

A liminar foi cassada em março, e a vazão no reservatório de Xingó voltou ao nível de 800 m³/s no dia 17 daquele mês.

A partir de outubro, a vazão da hidrelétrica de Xingó poderá ser novamente reduzida —agora para 700 m³/s. A determinação segue solicitação do setor elétrico para não reduzir a vazão antes desse período, e foi tomada na segunda-feira (29), na sede da Agência Nacional de Águas (ANA), em Brasília, durante reunião para avaliar os efeitos da defluência reduzida.

De acordo com um porta-voz do CBHSP (Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco) que preferiu o anonimato, a decisão não tem relação com a morte de Montagner, mas, sim, com estudos apresentados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) sobre a previsão hidrológica para a bacia até o final do ano.

OUTRO LADO

Por meio de sua assessoria, a Chesf enviou, na tarde de quinta (29), nota em que “reafirma que, como parte integrante do Sistema Interligado Nacional, a Usina Hidrelétrica de Xingó é operada cumprindo diretrizes, regras, critérios e procedimentos, no sentido de atender, com segurança, qualidade e eficiência, ao fornecimento de energia elétrica à sociedade”.

Sobre o fluxo de água no dia 15 de setembro, a companhia afirma que “a operação da Usina de Xingó foi realizada conforme programação de geração definida pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico para atendimento ao consumo de energia elétrica da população, não tendo havido nenhuma operação extraordinária, tendo sido similar a dos dias anteriores e posteriores neste mês de setembro, respeitando-se os condicionantes estabelecidos para a operação da usina”.

A Chesf destaca ainda que “a Bacia Hidrográfica do São Francisco enfrenta a maior estiagem em 86 anos do histórico de registro hidrológico, com a vazão defluente (água liberada) pela Usina de Xingó no menor nível de sua história”. Dessa forma, “a tentativa de relacionar o trágico falecimento do ator aos valores de vazão da usina é mera especulação, sem fundamentação técnica, tendo em vista que a localização do acontecimento é histórica e reconhecidamente de risco, fora da área de atuação da Chesf”.

Fonte: Folha de S. Paulo

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