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Flagrantes: Bingo ilegal movimenta noite no Centro da cidade
26 de dezembro de 2016 às 12:09
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Em meio aos prédios, bancos e estacionamentos privados do Centro de Fortaleza, um antigo entretenimento continua em pleno funcionamento, o jogo de bingo. Jovens, idosos, casais e até militares se espalham por mesas na frente de monitores de computador, em um prédio localizado na Rua Major Facundo. A movimentação e o entra-e-sai de jogadores chama a atenção de quem circula nos calçadões.

A reportagem do Diário do Nordeste visitou um bingo, que recebe centenas de jogadores por noite. Em dias diferentes, ao longo de duas semanas, os repórteres conferiram de perto o funcionamento da casa de jogos. Os jogadores se reúnem no início da noite, por volta de 19h, na Praça do Ferreira, e seguem até o prédio do bingo. O local não tem placas ou sinalização que o identifique como bingo. Três taxistas na porta do prédio aguardam quem sai da casa de jogos.

No primeiro dia de visita pela equipe, um jogador (identidade preservada) convidava quem passava na porta para jogar. “Tá procurando diversão com os amigos? Aqui tem um bingo familiar. Tem comida e bebida baratinha”, disse. De manhã, o jogador trabalha próximo ao prédio em um restaurante e pelo menos em três dias da semana ele joga. “Eu gasto mais o que eu ganho de gorjeta. Já cheguei a gastar minha quinzena todinha numa noite e sai com o dobro, mas a gente perde mais que ganha”.

Entrada

A segurança para entrar no prédio é frágil, mas compensada por uma média de 12 homens que circulam nos corredores do estabelecimento. Portas de vidros com fumê, uma antessala e uma porta giratória separam quem joga de quem passa na rua. Dois seguranças vestidos com terno preto observam o movimento das pessoas que entram. Dos jogadores desconhecidos, eles solicitam a identidade para verificar se a pessoa é maior de idade, mas sem muitos questionamentos. Dos locais percorridos dentro do prédio, não é possível visualizar nenhum tipo de câmera de monitoramento nos corredores, paredes ou colunas.

Os clientes da casa podem escolher mais de 150 monitores para jogar. Mesmo com a modernização, ainda é preciso comprar a tradicional cartela. Os bilhetes podem custar de R$ 1 a R$ 2, dependendo do tipo da rodada. As partidas dão prêmios para quem acerta 90 números, a cartela cheia, a metade ou apenas uma linha de cada cartão. Mesmo com o sistema de computadores, muitos idosos ainda preferem riscar o papel. A gerência agrada e coloca mesas no centro do grande salão.

Os valores das premiações variam entre R$ 500 e R$ 1,5 mil. Uma rodada especial, em que a cartela vale R$ 2, a premiação pode chegar a R$ 3 mil. Diferente do velho bingo entre amigos, onde uma rodada pode demorar horas, uma partida do bingo eletrônico dura, em média, dois minutos. Por noite, é possível contabilizar mais de 240 partidas.

Para quem deseja comer e beber, o estabelecimento fornece serviço de garçons na mesa. Uma lata de cerveja custa R$ 4,50; uma garrafa de água, R$ 2. Durante a permanência da reportagem na casa, um militar do Corpo de Bombeiros, fardado, foi visto jogando e circulando pelo prédio. Os repórteres também chegaram a ganhar o valor de R$ 500, mas não deram sinal de que ganharam nem pegaram o dinheiro da “premiação”.

Durante a partida, os jogadores mais experientes orientavam os mais novos a não gastarem dinheiro muito rápido. “Rapaz, não gaste seu dinheiro todo não. Deixe um pouco pra semana”, comentou uma senhora ao ver um casal comprando cartelas. Para se ter dimensão da organização da casa, uma equipe de limpeza é destinada a recolher os cartões de bingo, após cada rodada. Com sacos de lixo e sem contato com os clientes eles recolhem papeis sobre as mesas. A saída da casa ocorre sem revista ou outro tipo de procedimento de segurança.

O chefe da Delegacia de Repressão a Crimes da Fazenda, Madson Henrique Tenório, afirma que não existe qualquer denúncia relacionada a bingo em Fortaleza. “Estou no cargo desde abril deste ano. Não recebi nenhuma ocorrência sobre o assunto”. A reportagem entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), que afirmou não conseguir contato com delegados responsáveis pela área.

Doença

Para o professor David de Lucena, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), a dependência de jogos se aproveita de um posicionamento básico do cérebro. “Pessoas e animais trabalham com o estimulo da recompensa, assim como no bingo”, explica. Segundo o médico, o estímulo recebido nas casas de bingo ou qualquer outro jogo de azar é semelhante ao que sente um usuário de drogas ou quem está praticando ato sexual. “Algumas pessoas têm um nível mais elevado de euforia e recompensa em determinadas atividades de lazer”.

O médico avalia que esses jogadores, enquanto pacientes, podem ter dois tipos de diagnóstico: “Existem dois perfis. O primeiro é de uma minoria que está ali e é genuinamente dependente do jogo. O outro perfil é do indivíduo que não reconhece a dependência e projeta o problema em outras pessoas do convívio”, diz.

Diário do Nordeste

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