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Jaguaribara está paralisada pela seca
17 de dezembro de 2016 às 10:42

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Um centro urbano com poucas pessoas nas ruas, prédios fechados, queda acentuada no varejo. Esse é o cenário atual desta cidade, no Vale do Jaguaribe, depois que o maior açude do Ceará, o Castanhão, passou a enfrentar a mais severa crise hídrica. A economia local tem por base a produção de pescado (tilápia), que sofreu uma retração de 96%. Os negócios estão paralisados.

A cidade enfrenta duas crises econômicas: a de caráter nacional e uma de característica local. Este mês de dezembro, que costuma aquecer as vendas no varejo, vai entrar para a história como o pior desde quando houve a mudança, em 2003, para a nova Jaguaribara. “Será um Natal amargo”, disse a vendedora de uma loja de eletrodoméstico, Reginusa Carneiro. Há sete anos na função, nunca deixou de bater a meta da empresa. “Agora, com certeza, não vai dar”.

Desânimo

O clima é de desânimo e preocupação. Há o temor de que em 2017, a situação se agrave, caso o Castanhão não receba das chuvas recarga de água. Em fins de fevereiro vindouro, o reservatório, que acumula 5,17% de sua capacidade, deve atingir o volume morto.

Depois da mudança dos moradores e da cheia do açude, em 2004, logo começou a criação de pescado (tilápia). A atividade prosperou rapidamente, atraindo grandes empresários e piscicultores locais, que formaram associações. A produção extrapolou o limite legalmente permitido e chegou a ser estimada em 400 toneladas por mês.

A piscicultura gerou centenas de emprego e a renda dos trabalhadores e produtores rurais aqueceu a economia da cidade. O varejo estava em expansão. Porém veio a crise hídrica. “A produção de pescado é a base da nossa economia, mas hoje o dinheiro que circula no comércio é proveniente de aposentados e servidores públicos”, disse o secretário de Administração e Finanças do Município, Wilame Duarte. “O quadro é preocupante”, acrescentou.

A Prefeitura também está paralisada. A arrecadação do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) cai com a queda nas vendas. Duarte observa que há pelo menos oito anos, os negócios provenientes da criação de tilápia se intensificaram e movimentaram a economia local de forma crescente. “Agora vivemos um retrocesso. Está tudo paralisado”, frisou. A situação agravou-se com a explosão da agência do Banco do Brasil, há 20 dias, por uma quadrilha. A unidade foi danificada e os clientes precisam se deslocar cerca de 60 quilômetros para outras cidades (Alto Santo, Jaguaribe) em busca de atendimento dos serviços bancários. Não há prazo de retorno de funcionamento da agência.

Migração

A secretária da Associação dos Criadores de Tilápia do Castanhão, Eliane Clemente, foi enfática ao dizer que: “sem água, a criação de peixe não dá mais e muitos já foram embora para outros Estados”.

Ela frisa que a renda da cidade depende dos aposentados e servidores públicos. “A Jaguaribara nova não tem área rural. Praticamente só o núcleo urbano, o entorno do açude”. Os projetos produtivos (criação de bovinos e produção de frutas não deslancharam. Tudo isso contribui para a crise se agravar.

O piscicultor que não se mudou para outros açudes fora do Ceará está parado. O pior é que muitos contraíram financiamento bancário e não têm como pagar os débitos. “É preciso o governo federal lançar um programa de prorrogação e descontos para os empréstimos no período de 2012 a 2016, anos de seca. A maioria está endividada”, disse o integrante do Comitê de Bacia do Jaguaribe, Paulo Landim.

O piscicultor Emídio de Oliveira foi um dos que saíram do Castanhão. “Estou com criatório em Itaparica, Pernambuco, mas lá também está secando. Saí com quatro filhos, a família, em busca de sobreviver e manter a atividade”, disse.

A Prefeitura de Jaguaribara recebia um aporte financeiro do governo do Estado no valor de R$ 96 mil decorrente de compensação definida em um estudo de impacto por causa da mudança da cidade. “A velha Jaguaribara era pequena, havia menor custo de manutenção”, explicou o secretário Wilame Duarte, mas o governo do Estado suspendeu, em 2011, o repasse financeiro.

O secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Aquicultura, André Siqueira, disse que este é o pior momento enfrentado pela piscicultura no Castanhão, desde 2004. “Houve dois grandes eventos de mortandade e a produção está praticamente suspensa por falta de água. Daqui a quatro meses, se não chover, o açude não terá água”, frisou.

Turismo

Sem a produção de pescado, que gerava emprego e renda, a atividade comercial foi afetada. O setor de serviços também. “Os turistas foram embora e não voltaram, faltam atrativos”, lamentou o empresário José Maria Martins, dono de um restaurante que é referência local. “Atendia, por semana, a 150 visitantes e a 30 moradores da cidade, mas hoje não aparecem 30 turistas e os daqui caíram para cinco. A venda caiu muito”, contou.

Sem a produção de peixe, os representantes comerciais das indústrias de ração não aparecem mais. Sem água no açude, os turistas sumiram. Resultado: a taxa de ocupação das pousadas despencou cerca de 80%. “Metade dos funcionários foi demitida e os apartamentos estão vazios. Restaurantes foram fechados”, disse a gerente de uma pousada, Maria Neuma Araújo. Para a vendedora Fátima Oliveira, o sonho de uma cidade com emprego e renda decorrentes da produção de pescado e agropecuária acabou. “Parece que uma tsunami passou por aqui”, disse.

Os projetos produtivos de bovinocultura de leite também foram afetados com a redução drástica da água para irrigação de capim. O projeto de fruticultura está bem aquém do estimado.

A cidade de Jaguaribara nasceu planejada, com ruas largas, avenidas, canteiro central, ciclovias. Às segundas-feiras ocorre a feira livre. Barracas são armadas no centro e moradores e vendedores quebram o esvaziamento que ocorre diariamente. Nos outros dias, a impressão que se tem é de que é um feriado prolongado. As lojas permanecem vazias, os vendedores de braços cruzados assistem às horas passar, esperando pelos clientes que custam em não aparecer.

Enquete

Como estão as vendas?

“Nunca deixei de bater a meta da empresa, mas, neste ano, não vai dar. Os clientes sumiram. Na cidade, não se fala em outra coisa a não ser nessa crise que aumentou com o fim da produção de pescado em gaiolas”
Reginusa Carneiro
Vendedora

“Recebia nos fins de semana grupos de turistas, que não vieram mais porque o açude secou e não tem o que se ver. Os restaurantes e pousadas perderam clientes, as vendas caíram. A cidade precisa de atrativo turístico”
José Maria Martins
Empresário

Fonte: Diário do Nordeste

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