JPMotos
Imigrantes buscam recomeço e enfrentam mercado de trabalho no CE
1 de maio de 2019 às 09:37
34
Visualizações

A vinda para o Brasil, ainda nos anos 1970, foi uma aposta dos pais de tentar lhe proporcionar uma vida melhor. Maurício Dominguez chegou ao Brasil aos 17 anos para cursar a faculdade de Odontologia, em Recife. Natural da Colômbia, teria mais oportunidades aqui do que no seu país, à época dominado pelo narcotráfico comandado por Pablo Escobar.

A fuga do lar em busca de um lugar melhor para viver é a realidade de muitos estrangeiros que têm buscado o Brasil como um caminho para conseguir viver melhor. Somente em fevereiro deste ano, 77 imigrantes das mais diversas partes do mundo receberam o visto de residente (aquele que concede permissão para trabalhar) no Ceará. Destes, 74 eram homens e apenas três, mulheres.

Formado aos 21 anos, Maurício ainda não se sentia preparado para voltar à Colômbia e veio a Fortaleza fazer especialização. Já sem dinheiro, trabalhou como garçom, entregador de pizza e professor até conseguir montar o próprio escritório de odontologia. Ele acabou construindo uma vida e constituindo família na capital cearense, não concretizando os planos de regressar.

“Não foi fácil quando cheguei a Fortaleza. Tive que procurar emprego para me manter, e a barreira da língua foi muito complicada. Já formado, tive que trabalhar fora da minha área até ter condições de colocar um lugar só meu. Como forma de agradecer o acolhimento da cidade, dei continuidade ao trabalho de assistência à crianças no Jangurussu iniciado pelo meu irmão, também odontologista”, conta Maurício.

Após o projeto ganhar visibilidade, o imigrante foi convidado a ser cônsul da Colômbia em Fortaleza, posto que ocupa há 21 anos. “Eu ajudo todos os colombianos que solicitam visto permanente aqui. Eles passam por mim para a validação dos documentos. É um procedimento que a Polícia Federal exige. Atualmente, já há cerca de 1.700 colombianos morando no Ceará”, conta Maurício.

Panorama

O volume de imigrantes chegando ao Ceará continua crescendo apesar do retrato desfavorável do mercado de trabalho local. Somente nos três primeiros meses deste ano, o Estado perdeu 7.965 vagas de emprego formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado na última semana pela Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia.

Pablo Mattos, oficial de proteção da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados no Brasil (Acnur), destaca a importância da inserção no mercado de trabalho para a adaptação dos imigrantes e refugiados: “O trabalho é um motor fundamental na integração dessas pessoas no Brasil e também um aspecto que coloca a elas a possibilidade de contribuir para o Estado brasileiro. O retorno que a gente recebe tanto do imigrante quanto do empregador são muito positivos”.

Absorção

Sobre a capacidade de absorção do mercado de trabalho brasileiro, ele afirma que os imigrantes trazem habilidades diferenciadas. “O Brasil é uma das principais economias do mundo. Na medida que as pessoas podem contribuir para o crescimento econômico, nos parece que, a médio e longo prazo, a inserção dessas pessoas no mercado é algo positivo. Além disso, há imigrantes empreendedores que podem vir a empregar os próprios brasileiros nas atividades que exercem aqui”, ressalta Pablo.

Ele ainda acrescenta que o volume de brasileiros vivendo em outros países é muito maior do que o de estrangeiros morando no Brasil, o que não resulta na “desproporcionalidade número que muita gente imagina acontecer”.

Dificuldades

Entre as dificuldades extras que os imigrantes passam para conseguir emprego em relação aos brasileiros é possível citar, além da barreira do idioma, a não validade de seus diplomas universitários.

“Para a graduação e cursos superiores valerem aqui no Brasil ainda é um processo muito burocrático, principalmente porque cada universidade impõe suas próprias regras. Enquanto isso, eles acabam tendo que aceitar qualquer oportunidade disponível”, observa João Brigido Bezerra, coordenador de estudos internacionais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Como forma de tentar absorver essa mão de obra, algumas empresas tem se utilizado das diferenças culturais e proporcionado experiências diferenciadas. “Alguns restaurantes, por exemplo, incluíram no cardápio comidas típicas de outros países e contrataram nativos para fazê-las”, pontua Brigido.

Direitos

Os imigrantes regularizados possuem os mesmos direitos trabalhistas que qualquer outro brasileiro, segundo ressalta a vice-presidente da comissão de direito do trabalho da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Ceará, Vanessa Oliveira.

“Eles têm direito a carteira de trabalho, assinatura na carteira, recolhimento da contribuição previdenciária, FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), entre outros”, esclarece Vanessa. Pablo Mattos, oficial de proteção da Acnur, acrescenta que o processo de contratação também é idêntico ao de um brasileiro.

Confira amanhã

Na edição desta quinta-feira (2), confira histórias de refugiados que saíram de seus países em busca de lugares com paz e mais oportunidades e optaram por recomeçar a vida no Ceará

Diário do Nordeste

ComentáriosComentários