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Ataques: 20 veículos incendiados na maior ofensiva do crime do CE
20 de abril de 2017 às 10:29

A cidade amanheceu normal e aos poucos foi percebendo que sua rotina estava sendo alterada. Os coletivos foram diminuindo nas ruas, universidades cancelaram as aulas, empresas liberaram seus funcionários mais cedo, o trânsito nas vias mais movimentadas parou. Fortaleza e Região Metropolitana estavam sendo vítimas do maior ataque criminoso da história do Ceará: 16 coletivos e quatro carros incendiados no mesmo dia.

As causas ainda não estão claras. No entanto, três fontes da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) que conversaram com a reportagem, foram unânimes em dizer que os ataques estão ligados a questões geradas dentro do Sistema Penitenciário. A hipótese mais provável é que os incêndios tenham sido desencadeados por uma transferência de presos do Complexo Penitenciário de Itaitinga.

Uma das fontes revelou que houve um desentendimento entre as facções Comando Vermelho (CV) e Guardiões do Estado (GDE), que antes conviviam harmonicamente nas penitenciárias, por serem aliadas. “Eles começaram a brigar e coisa ia ficar séria. Decidiram transferir alguns presos do Comando Vermelho e do GDE, só que isso piorou a situação porque eles foram colocados em penitenciárias dominadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que é o maior rival das duas facções”, declarou.

No último domingo, um preso foi espancado na CPPL II e ação foi filmada. Nas cartas deixadas nos veículos atacados, os criminosos mencionam supostas opressões aos membros da GDE e citam a CPPL II. A situação que se agravou nos presídios parece ter extrapolado as muralhas ao meio-dia de ontem e chegou às ruas.

A juíza titular da Corregedoria dos Presídios de Fortaleza, Luciana Teixeira, negou que os ataques tenham relação com questões de dentro dos presídios. Entretanto, a magistrada confirmou que trocas de detentos foram realizadas entre duas unidades do Sistema Penitenciário, na terça-feira (18). “A gente teve uma reunião com vários atores (órgãos públicos) para discutir a separação de presos por supostas facções. A decisão foi unânime para fazer esses remanejamentos. O objetivo é a preservação da vida dos presos”, revelou a magistrada.

Sequência

Em pouco tempo já se tinha notícia de vários coletivos pegando fogo. A SSPDS registrou 20 ataques a veículos: 16 deles contra ônibus, sendo 12 na Capital; e quatro contra carros de empresas. Os coletivos queimados estavam nos bairros Edson Queiroz, Jangurussu, Conjunto Palmeiras, Barroso, Barra do Ceará, Siqueira, Parque Dois Irmãos e Aerolândia. Outros quatro foram interceptados em Maracanaú, Horizonte, Eusébio e Pacajus. Quatro ações foram registradas contra carros da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), no Jangurussu e Vila União; um automóvel da Enel Distribuição Ceará, no Jardim das Oliveiras; e um veículo do Departamento Municipal de Trânsito de Caucaia.

Um dos primeiros ataques aconteceu às 12h15. Dois homens que estavam em uma moto pararam, na Rua Edmar Villar de Queiroz, no bairro Édson Queiroz e atearam fogo em um veículo que estava parado e sem ocupantes, segundo o sargento PM Pedro Paulo. Um motorista de ônibus, que estava próximo ao local em que as chamas começaram, afirmou que os bandidos tentaram incendiar outro ônibus, mas não conseguiram e acabaram fugindo.

Do outro lado da Capital, às 13h15, um grupo de cerca de 10 criminosos armados parou um coletivo da linha Beira Rio, que transitava pela Avenida José Lima Verde, e mandou motorista, cobrador e passageiros deixarem do coletivo. Em seguida, o veículo foi incendiado.

Dois veículos do Grupo Cosampa, que presta serviço terceirizado à Enel Distribuição Ceará, também foram atacados. Os carros estavam parados na Rua Ricardo de Araújo Braga, no bairro Cidade dos Funcionários, enquanto os funcionários desligavam uma ligação clandestina. Dois homens, em uma motocicleta, pediram para os eletricistas tirarem os pertences pessoais e colocaram gasolina nos automóveis, mas apenas um foi incendiado. O outro transporte ainda foi alvejado com um tiro.

Antes de saírem, os bandidos deixaram uma carta com assinatura da facção criminosa GDE, em que reclamam de transferências de detentos realizadas entre presídios e ameaçam o Governo do Estado. A GDE nasceu no Conjunto Palmeiras, na Capital, e ficou conhecida depois da aliança com o Comando Vermelho. “Dissidentes de uma torcida organizada migraram para o crime, conseguiram a aliança com uma facção nacional e hoje muita gente é filiada ao GDE”, contou uma fonte da SSPDS.

DiariodoNordeste

 

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