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Tratamento desigual: Parlamentares cobram atenção da União ao Nordeste
16 de janeiro de 2017 às 11:37

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“Prestigiar o Nordeste é prestigiar o Brasil”, declarou o presidente Michel Temer (PMDB) a uma plateia de nordestinos, ainda em dezembro do ano passado, quando esteve em Fortaleza para participar de cerimônia de assinatura de atos na sede do Banco do Nordeste. Sem nenhum grande anúncio na bagagem da primeira – e até agora mais recente – viagem ao Ceará, o peemedebista buscou proximidade com as palavras: “Verifiquei que um dos diálogos mais importantes que tenho de fazer é com o Nordeste, e é isso precisamente que eu começo a fazer neste momento”, sinalizou.

O ano mudou e, para 2017, o discurso ainda não convence na prática. Na avaliação de parlamentares nordestinos, o tratamento desigual dado pela União à região se mantém com o passar do tempo, ainda mais no atual momento de crise no País. Por isso, alguns defendem mudanças na postura da bancada federal do Nordeste, composta por 151 parlamentares, para que, na volta dos trabalhos da Câmara dos Deputados, em fevereiro, as necessidades da região possam ser ouvidas com mais urgência pelo governo federal.

Afinal, Temer não é o primeiro chefe de Estado a prometer, em tom de prioridade, diálogo com o Nordeste. Já nos idos de 1850, o imperador Dom Pedro II, ao testemunhar os efeitos da seca em visita ao Sertão Central do Ceará, afirmara: “Venda-se o último brilhante da coroa, contanto que nenhum nordestino morra de fome!”. De lá para cá, Getúlio Vargas criou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Juscelino Kubitschek fundou a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Vieram também outros governos, com diferentes iniciativas e o mesmo discurso.

“Nós não precisamos de prestígio. Precisamos de um planejamento global, levando em consideração as regiões. O Norte é diferente do Nordeste, e no próprio Nordeste nós temos diferenciação. É só olhar para o Ceará, com cinco anos sem chover”, considera o deputado federal Chico Lopes (PCdoB-CE). Ele vê com preocupação a fragilidade do tratamento dado à bancada nordestina na Câmara ao reivindicar demandas da região.

Desenvolvimento

“Na bancada do Nordeste, que é quase um terço (da composição da Casa), nós não temos a força que têm o Sul e o Sudeste”, relata. “O governo federal, se tivesse preocupação, já tinha resolvido o problema do São Francisco, da Transnordestina. E nós temos que ter uma política nacional de desenvolvimento através das nossas condições de região. Não podemos ser tratados como São Paulo. Temos que ser tratados como diferentes, porque somos diferentes”, acrescenta.

A crítica de Chico Lopes à relação entre a bancada do Nordeste e o Executivo, contudo, não tem apenas um destinatário. É problema, segundo ele, que vem de outros governos. “Nós temos dificuldade atualmente, estando na oposição, mas tínhamos quando estávamos também na situação. A gente também tinha dificuldade, então é da própria política nossa. Por que o Dnocs era desprestigiado? Olha, o Dnocs, com cem anos de experiência e a seca em intensidade, era para muito ter se investido no Dnocs”, opina.

Coordenador da bancada cearense na Câmara, o deputado federal José Airton Cirilo (PT-CE) lembra que, no fim de 2016, a União liberou R$ 150 milhões, a partir de emenda da bancada do Estado, para a conclusão do trecho 1 do Cinturão das Águas do Ceará, além de outros R$ 150 milhões para a continuidade das obras da Ferrovia Transnordestina. São notícias que, para ele, representam tentativa do governo federal de compensar perdas à região. “Na nossa região, o tratamento tem sido muito desigual. Enquanto os estados mais abastados têm tido tratamento mais privilegiado, a nossa região, que está numa situação grave, tem sido muito penalizada”, aponta o parlamentar.

O petista, contudo, não reclama de falta de diálogo. José Airton defende que os governos de Lula e Dilma “mudaram a face do Nordeste” com obras importantes para a região, mas diz que o contato da bancada com ministros do governo federal têm sido mais acessível até mesmo do que nas gestões do próprio partido. “Para ser bem honesto, eu tenho sido muito bem recebido por todos os ministros do governo. Alguns ministros atuais recebem até melhor do que nos governos do PT”, compara. Nada é, porém, garantia de liberação de recursos. “Com a crise econômica, a liberação ficou muito comprometida”, reconhece.

Há, contudo, quem demonstre otimismo diante de pressão. Coordenador da bancada do Nordeste na Câmara, o deputado federal Júlio César (PSD-PI) analisa que a “maior crise da História” – política, administrativa, econômica e financeira, nas palavras dele – repercute em todos os entes federados, mas relata que Temer já disse que concluirá as obras da Transposição das Águas do São Francisco e lutará para reativar as obras da Transnordestina, que, para o deputado, são as obras estruturantes mais expressivas da região.

Órgãos regionais

“É tudo que o Nordeste precisa? Não. Precisamos de muito mais investimento, mas antes de tudo queremos que ele conclua os dois maiores investimentos do Nordeste, que é a Transposição, de fundamental importância para o abastecimento humano de vários estados, e a Transnordestina”. Após sanção de lei que dá descontos e facilita a renegociação de dívidas de produtores rurais do Norte e do Nordeste, o deputado diz ainda que a “batalha” da bancada, agora, é o fortalecimento dos órgãos regionais. “A Sudene e o Dnocs, que estão sucateados, sem nenhuma condição de operar como operaram no passado”.

Chico Lopes, por sua vez, defende que haja unidade entre governadores, senadores e deputados em torno de uma plataforma de cobrança ao governo, e não a política clientelista de partilha que vê hoje em torno da distribuição de órgãos por partidos.

“Eu fico doente de ter um Dnocs, de ter uma Transposição, da Transnordestina, que se tivesse tudo funcionando no tempo que foi calculado nós não estávamos discutindo isso, estávamos discutindo outra coisa”, lamenta. “Temos que repensar qual o nosso comportamento diante dos governos federais, e começamos pelas alianças, porque na hora dos votos dos nordestinos é uma beleza, tem até música, mas, na hora de sentar, São Paulo engole todo mundo”, critica.

Fonte: Diário do Nordeste

 

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