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Denúncias por intolerância religiosa caem em 2019 no Ceará
16 de novembro de 2019 às 08:00
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As manifestações da fé carregam uma beleza que perde espaço quando é alvo de preconceito e discriminação. O cenário fica explícito no Dia Internacional da Tolerância, lembrado hoje (16), no momento em que uma lupa é posta sobre os casos de intolerância religiosa: conforme levantamento do Disque 100, 63 denúncias de agressões ligadas à religião foram registradas no Ceará, entre 2012 e 2018. Neste ano, até julho, dois casos foram reportados. Apesar da redução, há reclamações de demora na conclusão das investigações.

Das oito denúncias registradas no Estado, no ano passado, metade aponta o desrespeito com praticantes da Umbanda, outras duas atingem o Candomblé, uma o Espiritismo e outra não teve religião informada, característica que se repetiu nos dois registros feitos em 2019. Ainda de acordo com o relatório do Disque 100, a maioria das agressões atinge a vítima dentro de casa e é praticada por vizinhos – dado consonante com a situação vivenciada pelo babalorixá Léo Ty Osun, sacerdote do culto do Candomblé. Desde 2012, foram 40 denúncias do tipo.

“Eu tenho 25 anos no Candomblé e uma casa aberta na Maraponga há dez anos. Tinha vizinhos que jogavam pedra, coco e tijolo na minha casa. É absurdo você viver num país em que as pessoas se incomodam com a sua forma de crer”, lamenta o religioso, que leva como missão o trabalho de desmitificar a imagem deturpada que uma parcela da sociedade tem sobre a crença.

Demora

O próprio babalorixá relembra que já recorreu ao Disque 100 depois de sofrer violência verbal, mas considera a ferramenta ineficiente. “Tive de denunciar, mas só três anos depois foi notificado à delegacia. Tomei um susto, pois nem me lembrava da denúncia”, critica. A situação discriminatória, então, foi resolvida no diálogo – mas ele reconhece que nem todos os casos são simples de solucionar, principalmente quando as vítimas temem denunciar. “A denúncia vem acompanhada do medo de uma represália e de que as pessoas lhe identifiquem. Muitas pessoas não denunciam por medo”, frisa.

Penalidades

O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador da temática religiosa, Christian Dennys, corrobora com a deficiência na resposta às denúncias. “Uma das dificuldades, em termos de direitos, é detectar se é religiosa, sexual, se passa por questão racial, se envolve vínculo de pobreza ou não”, afirma. “Uma associação tem o cuidado de receber denúncias – algumas avançam, ou não avançam porque o campo de provas é muito difícil. Se você não tratar isso correlacionando com outras intolerâncias, fica muito difícil”, explica.

Saída

Segundo Christian Dennys, a intolerância é, muitas vezes, “alimentada” dentro das próprias religiões predominantes. “São dois tipos de intolerância: a que parte para agressões verbais e físicas diante das manifestações religiosas, tanto em praças públicas e templos como nas redes sociais; e o comportamento implícito, que está no ato de fazer manifestação religiosa baseada em uma guerra de números”, fundamenta.

Especialista e vítima convergem sobre saídas para o atual ambiente hostil. Um dos principais pontos é respeitar as diferenças. “Alimentar uma intolerância cultural generalizada está reproduzindo um campo de dificuldade de lidar com pluralidade”, acentua o pesquisador. Enquanto Léo Ty Osun promove arrecadação de materiais para doar a instituições beneficentes da cidade e distribui material informativo em comunidades.

Para o religioso, o caminho está nas escolas e na educação familiar. “Todos esses problemas estão ligados à educação, a um País que não trabalha com o futuro. As escolas, os professores e as famílias é que vão moldar o caráter para criar futuros adultos tolerantes, conscientes de que cada um tem um estilo de viver e de crer”, pontua.

 

Diário do Nordeste

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