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Raízes de 1877 resistem na identidade de Fortaleza
10 de julho de 2017 às 06:18

Reportagem 140 anos da Grande Seca

07 de Julho de 2017 – Registro fotográfico dos flagelados da seca de 1877 na estação ferroviária de Iguatu à espera de trem para Fortaleza. Na seca de 1877, Fortaleza chegou a receber retirantes que representavam mais do triplo de sua população. Fonte: “Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na Seca de 1932” BA 6,87 AL 4,77

As rachaduras dos pés descalços – ou cobertos pelo couro já desgastado da sandália – têm tanta poeira quanto as do solo ruivo, amarronzado, indeciso porque morto. São quase gêmeos, esses caminhos, do corpo e do chão, que se traçam pela falta de uma gota d’água qualquer, como se preparados para receber o fluxo fresco – e ele não vem. Os dois, pisante e pisado, já cinzas, são ainda incendiados pelo sol-fogo impiedoso, imponente sobre o sertão nordestino e sobre as cabeças que olham o céu, clamam por São José e migram do campo à cidade, arrastando os meninos e o resto do gado, em busca de vida fora da seca.

O ápice da migração do Interior do Ceará à Capital ocorreu no período em que o povo era “atrozmente flagellado pela clamorosa sêcca que o aflige, roubando-lhe as energias vitaes”, como descreveram, em ofícios e cartas, as autoridades da Fortaleza-província, no Brasil Império, em 1877. Em 2017, 140 anos depois do início da Grande Seca do Nordeste – batismo da História ao período entre 1877 e 1879 -, seguem expostos na literatura de Rachel de Queiroz, nas canções de Gonzagão, em documentos históricos e nos alicerces da cidade os traços do êxodo sertanejo que esvaziou o Interior e ocupou a Capital.

“As pessoas vinham de todas as regiões do Estado porque aqui era o único lugar onde se pensava escapar da seca. Com o advento do trem, isso foi facilitado e intensificado. Já pensou vir da Região Jaguaribana no sol, a pé? Morria tudo”, remonta o historiador Miguel Ângelo, o Nirez, relembrando a época em que a população de Fortaleza subiu de 20 mil habitantes, no censo de 1872, para cerca de 130 mil, ao fim da seca, em 1879.

Foi justamente a superlotação que começou a configurar – geográfica e socialmente – a Capital cearense, habitada, hoje, por 2,6 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “À medida em que se ampliavam as vias de acesso, aumentava a mobilidade. Sem dúvida, a cidade oferecia muito mais condições de acesso à educação, saúde e políticas públicas. Isso por si só já justificava o deslocamento”, explica o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), José Borzacchiello da Silva, ressaltando a força que o transporte ferroviário – já implantado em 1872 – exerceu sobre os processos migratórios e, consequentemente, de formação da cidade.

“A Estrada de Ferro em Fortaleza potencializou esses fluxos, que vinham do Sertão Central, de áreas mais secas, como Santa Quitéria e Jaguaribe, e de todo o Ceará. A linha do trem gerava e gera um processo de apartação entre o que está do lado de cá e de lá. Ela estabelece uma fronteira, fragmenta”, analisa o geógrafo, sinalizando que a desigualdade ainda visível na cidade tem raízes profundas, plantadas no solo seco do passado.

Isso porque, já em 1877, Fortaleza foi dividida em distritos, guetos com limites intransponíveis pelos retirantes fugitivos da seca. Era proibido “enfeiar” a Capital-filha de Paris. “A cidade era protegida por códigos de postura. A elite cobrava medidas para que os flagelados não tomassem conta dos espaços. Havia intolerância com essa população, acentuando a segregação social”, afirma Borzacchiello, puxando outra ponta do fio que se estende por séculos. “É nesse contexto de apartação que surgem alguns bairros do subúrbio de hoje”, analisa o professor.

A Grande Seca, porém, como toda ação da natureza, não escolheu classe. Nem cor. Nem gênero. “Foi atípica, muito violenta e, pela primeira vez, tomou uma dimensão pública. Antes, os problemas eram atendidos no âmbito das grandes fazendas de gado. Em 1877, até os grandes proprietários foram atingidos”, conta o diretor do Arquivo Público do Ceará, Márcio Porto. É provável, mesmo, que até os ricos fazendeiros tenham sucumbido às doações vindas da Europa “em favor dos infelises oprimidos pela actual calamidade da sêcca”, arrecadadas pela Comissão de Soccorros Públicos, primeiro órgão de assistência social que Fortaleza conheceu.

Os donativos que constam nos ofícios da Província às autoridades do Império deveriam, porém, ser destinados aos milhares de retirantes que se abrigavam em palhoças e trabalhavam como pedreiros em obras e cacimbas públicas nas praças de Fortaleza – em troca de alimento e de “camizas de algodão bom” para usarem nos roçados à beira da Serra de Maranguape ou em qualquer ponto da cidade imersa em poeira e desigualdade.

Legado

Quase quatro décadas depois, nas secas de 1915 e 1932, o cenário se repetia. Os “distritos” viraram campos de concentração – ou “currais do governo”, como os retirantes confinados em uma realidade à parte chamavam. As condições de vida insalubres espalhavam epidemias, os trens traziam mais gente pela Avenida Carapinima, entrando pelo Centro, desviando-se à Bezerra de Menezes – onde nasceu a primeira favela da cidade: “Cercado do Zé Padre”, em 1932.

“Não podemos pensar a Fortaleza dessa época com os bairros nobres. O porto, a sede do Governo e o fórum eram no Centro. A Aldeota não era integrada à cidade”, explica José Borzacchiello, justificando o porquê de o Asilo de Mendicidade construído para abrigar os “imigrantes” indigentes ter ficado afastado de tudo, no prédio em que hoje se fala sobre toda essa História: o Colégio Militar de Fortaleza.

Outros prédios erguidos pelas mãos de lavoura – e para conviver com elas, mãos de sertanejos sem lar – permanecem como símbolos da memória na cidade, como a Santa Casa de Misericórdia, no Centro; o Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo, na Parangaba; e a Igreja de Nossa Senhora das Dores, no Otávio Bonfim. Talvez Fausta Brazil, Manoel Lázaro 1º e Maria de Jesus tenham deixado as digitais nas alvenarias, e não só nas listas de milhares de indigentes feitas pela Comissão de Soccorros Públicos, em 1877 e guardadas no Arquivo Público do Ceará, em pilhas de documentos.

Eles sobrevivem muito além das construções, dos relatos e da memória – mas, principalmente, no DNA do nordestino, rachado pelo sol-fogo, empoeirado pelo chão-cinza e restaurado pela resistência. (Colaborou Theyse Viana)

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Do presente ao futuro

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Até maio deste ano, cerca de 3 mil poços foram perfurados em áreas urbanas e rurais do Estado, segundo dados da SRH Foto: José Leomar

Das cacimbas públicas construídas com a mão de obra dos retirantes da seca cearense, sobram os registros históricos. Das linhas férreas nas quais eles migravam de casa a uma Fortaleza longe de ser acolhedora, restam os caminhos asfaltados. Os prédios públicos, hospitais e outros equipamentos, porém, ainda se verticalizam na cidade, assim como a preocupação latente com a falta d’água no Ceará, tensão constante deixada pela seca dos últimos cinco anos no Estado – que desafia não só o curso do tempo, mas também o Poder Público.

A escassez do recurso segue castigando os meios rural e urbano, assim como há 140 anos, no Império em que nem se sabia o que fazer para matar tantas sedes. Uma das grandes diferenças, porém, é que o êxodo de retirantes tornou-se mais raro, já que as ações que integram o Plano de Segurança Hídrica da RMF e outros programas assistenciais evoluíram, atendendo também às áreas críticas do Interior do Ceará.

“Nós sempre tivemos a preocupação de que as ações para conviver com a grande seca fossem emergenciais, no sentido da urgência de implantação, para garantir uma resposta mais imediata às necessidades da população. Mas também que fossem estruturantes, servissem não só para aquele momento, permanecessem como utilitárias para o futuro”, destaca o titular da Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará (SRH), Francisco Teixeira.

Segundo o secretário, a única medida que não deixa legado algum é a Operação Carro-Pipa, que distribui água potável nas regiões mais carentes do Estado. A despeito disso, a construção de poços e adutoras e as constantes políticas de conscientização para contingência de água visam a uma maior segurança hídrica a longo prazo.

 

“Com as chuvas deste mês, provavelmente teremos um resultado dentro da média, ao fim de 2017. Mas isso, para um Estado que passou cinco anos na seca, não gera uma recarga substancial nos açudes”, reconhece Teixeira. “Eu diria que nós estamos bem melhores na Zona Norte e na Região Metropolitana, onde existe garantia de água por mais um ano. Mas, infelizmente, nos maiores reservatórios, como em Jaguaribe, as chuvas não foram boas”, preocupa-se o titular da SRH.

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