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Análise: Como a Ferrari superou a Mercedes no GP da Austrália
28 de março de 2017 às 07:05

A facilidade com a que Lewis Hamilton e a Mercedes dominaram os treinos livres de sexta-feira no GP da Austrália deixou algumas pessoas chocadas. O que havia acontecido com a Ferrari, que mostrou grande velocidade nos testes de Barcelona e deu a muita gente a esperança de que o Campeonato Mundial de 2017 seria diferente em comparação aos últimos três anos?

As coisas ficaram um pouco mais parelhas no sábado, mas Hamilton ainda tinha uma vantagem significativa sobre Sebastian Vettel. E a tendência continuou a ser vista no começo da corrida.

Quando o carro #44 contornou a primeira curva confortavelmente à frente, parecia que a melhor chance para Vettel dar o bote já havia sido perdida. Ainda assim, a Ferrari cruzou a linha de chegada em primeiro 57 voltas mais tarde, o que deixou Hamilton e sua equipe procurando por respostas após.
A batalha pela vitória

Melbourne mostrou que os desejos de todos foram atendidos e que veremos uma batalha entre Mercedes e Ferrari neste ano. A Red Bull ainda não está no mesmo nível, mas seu pacote tem potencial caso as melhorias da Renault alcancem que deveriam.

Mas, no momento, a briga é vermelha e prateada – e tudo indica que será uma disputa parelha, com características de pista, acerto e desgaste de pneus interferindo.

Em Melbourne, Hamilton forçou o ritmo nas voltas iniciais, mas não conseguiu abrir vantagem. Pelo contrário: demorou cinco voltas para que ele ficasse mais de 1s à frente. A diferença subiu para 1s8 na volta 11, mas Vettel continuou pressionando, o que colocou a Mercedes novamente em apuros.

Lewis sofria com o uso dos ultramacios em condições relativamente mais quentes, o que fez com que seus pneus tivessem mais temperatura do que deveriam. Historicamente, isso faz com que sua performance caia.

O acerto da Mercedes fez com que os pneus fossem levados a um limite que ninguém mais aparentemente encontrou. E, ao acelerar fundo na corrida desde a largada, em vez de abrir vantagem, Lewis enfrentou problemas. E não foi apenas o inglês: apesar de ter tentado proteger os pneus, Valtteri Bottas também sofreu com os pneus em temperatura alta.

“Acredito que esses pneus têm uma janela de performance bem estreita. É preciso mantê-los nessa janela para fazê-los render bem. Se você está acima ou abaixo disso, perderá performance. Isso é diferente em relação aos últimos anos, já que é necessária uma nova calibragem para entender os pneus”, disse Toto Wolff, chefe da Mercedes.
Vettel tira proveito da pressão

Quando a janela de pitstops se aproximava, Vettel estava colado na traseira de Hamilton, e o líder estava sob séria ameaça. A Mercedes temia que a Ferrari parasse antes e que o piloto alemão, com pneus novos, tivesse um rendimento muito melhor em relação a Lewis em seu retorno à pista. Então, para evitar que isso acontecesse, a Mercedes decidiu por trazer Hamilton aos boxes mais cedo do que se planejava.

Então, ao fim da volta 17, para a surpresa da Ferrari, Hamilton foi aos boxes.

“A Ferrari era o carro mais rápido. Sebastian conseguiu manter contato com Lewis [antes da primeira parada], muito próximo, sendo que estávamos acelerando fundo. Nós simplesmente não conseguimos abrir vantagem”, disse Wolff.

“Havia o risco de Vettel parar antes e ganhar a posição e também achávamos que nosso pneu não iria durar mais. Isso fez com que nós parássemos antes. Então, ao voltar à pista atrás de Max [Verstappen], que estava fazendo sua própria corrida, nós perdemos a corrida.”

Hamilton de fato retornou atrás de Max Verstappen. A Mercedes obviamente sabia que Lewis estaria atrás do piloto mais difícil de ultrapassar, mas, mesmo assim, tomou a decisão.

Talvez este seja um indicativo do impacto que a pressão de um rival tem em uma decisão que precisa ser tomada em uma fração de segundo. Lembre-se de que estamos falando de uma equipe que dominou a F1 por três anos e estava acostumada a administrar internamente interesses de estratégia de seus dois pilotos.

A opção de anular um possível “pulo do gato” estratégico da Ferrari era válida, mas simplesmente não funcionou.

“Estávamos considerando todas as informações que tínhamos, o que víamos em termos de temperatura e aderência, além de, claro, a sensação do piloto. Tudo isso gera uma decisão, que, neste caso, provavelmente foi de parar algumas voltas mais cedo”, analisou Wolff.

“Na verdade, também esperávamos que Max parasse mais cedo e que [Hamilton] tivesse ar livre pela frente, mas foi uma combinação de variáveis que não nos favoreceram.”
Verstappen também teve interferência

Hamilton claramente não ficou feliz por voltar atrás de Verstappen. Ele ouviu de sua equipe, em tom de urgência, que “precisaria ultrapassar” o holandês, mas também recebia mensagens que diziam que a distância para Vettel ainda era confortável.

Por mais que isso fosse verdade naquele momento, parecia uma mensagem conflitante. Ele precisava assumir um risco para ultrapassar ou não?

Wolff explica: “Naquele momento, estávamos 1s7 à frente de Sebastian. Aquilo era tudo o que sabíamos no momento. Não sabíamos quando Max iria parar e por quanto tempo Sebastian permaneceria na pista.”

Max jamais facilitaria e, como se esperava, o pacote aerodinâmico da F1 para 2017 deixou a ultrapassagem mais difícil que nunca. Hamilton deixou isso claro pelo rádio: “Eu jamais vou conseguir passar esse cara…”

E, ao ficar quatro ou cinco voltas preso atrás de Verstappen, a comparação com Vettel já não era mais tão confortável assim.

A Ferrari parou na volta 23, depois de seis voltas andando com pista livre. Apesar de ter perdido tempo atrás de Lance Stroll na volta anterior ao seu pitstop, Vettel saiu imediatamente à frente da Red Bull e da Mercedes.

Hamilton ainda passou mais duas voltas preso atrás de Vertappen, já que o holandês usou seus pneus ao limite. No momento em que Max parou e Lewis ficou livre, a diferença já estava na casa dos 6s. Já era: Vettel estava longe na ponta.

Além disso, o alemão também pôde mostrar o ritmo real de seu SF70H, o que não foi visto na fase inicial da corrida quando ele estava preso atrás de Hamilton.
Limitação de danos para a Mercedes

A Mercedes ficou muito mais confortável com a borracha macia em uma pista cuja temperatura caía, mas Lewis, agora, precisava fazer com que seus pneus durassem seis voltas a mais até a bandeirada. Então, não havia margem para heroísmo.

A diferença subiu para mais de 10s, e Hamilton recebeu ordem para reduzir o regime de seu motor. Enquanto isso, Bottas encostou.

“Acho que eu tinha mais ritmo que eles no segundo trecho. Mas, como eu parei muito mais cedo, eu não sabia por quanto tempo o pneu iria durar. Eu não queria forçar para diminuir a diferença [para Vettel] sabendo que eu não conseguiria ultrapassar. Aí eu me veria com pneus desgastados e acabaria perdendo o segundo lugar. Então, foi mais uma questão de limitar os danos”, disse Hamilton.

Limitação de danos para a Mercedes em um dia que começou perfeito, não houve incidentes ou problemas mecânicos, nem interferência das condições climáticas? Isso mostra a batalha que a equipe terá pela frente. Isso significa que mais decisões estratégicas precisas terão de ser tomadas neste ano.

Terra

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