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EUA: Diretor do FBI irrita Trump com fala sobre campanha
22 de março de 2017 às 07:47

O diretor do FBI, James Comey, não é exatamente um personagem trivial. Na liderança de uma corporação conhecida pela independência e pela discrição, suas declarações sobre investigações em andamento têm se tornado uma fonte frequente de tumulto na já convulsionada política americana. Não foi diferente no depoimento que prestou ontem à Comissão de Inteligência do Congresso.

Os democratas consideram Comey o principal responsável pela vitória de Donald Trump em novembro passado. Dias antes das eleições, num momento em que Hillary Clinton liderava a corrida, ele anunciou que os federais examinariam novas informações sobre os e-mails que ela trocara usando um servidor privado (foto). A dois dias do pleito, informou que as tais informações não mudaram a decisão declarada meses antes, de não abrir inquérito. Ela acusou Hillary de desleixo – mas disse não haver indício de crime.

Pois ontem foi a vez de Comey desagradar aos republicanos e ao presidente Trump, ao confirmar o que todos já sabiam: está em andamento uma investigação do FBI sobre a interferência da Rússia nas eleições em favor de Trump e sobre as ligações russas com a campanha vitoriosa. O FBI não costuma divulgar inquéritos que conduz contra políticos. “Em circunstâncias incomuns, quando é do interesse público, pode ser apropriado”, disse Comey no Congresso. “Esta é uma dessas circunstâncias.”

Como a investigação começou em julho, uma deputada (a republicana Elise Stefanik, de Nova York) questionou Comey sobre o óbvio: por que ele revelara durante a campanha que havia investigação contra Hillary, mas não contra Trump? Resposta dele: “Por causa da sensibilidade da questão”. Na lógica policial, seria legítimo divulgar uma investigação que já não dera em nada (contra Hillary), mas não outra que ainda estava em andamento (contra Trump). A lógica política, claro, é bem outra.

Mesmo a lógica policial leva inevitavelmente a uma questão óbvia: o que existe, então, de concreto contra a campanha de Trump? Já que potencialmente, a interferência de uma potência estrangeira na eleição americana é um crime que pode levar ao impeachment, nada mais natural do que indagar sobre as evidências.

E aí Comey invocou repetidas vezes sua prerrogativa de não falar sobre uma investigação em andamento. Sabemos, portanto, apenas tudo o que já se sabia – muito pouco. Especificamente:

1) Os encontros do secretário da Justiça, Jeff Sessions, e do ex-assessor de segurança nacional, Michael Flynn, com o embaixador russo Sergey Kislyak, omitidos do público e, no caso de Flynn, do vice Mike Pence;
2) O envolvimento do ex-chefe da campanha de Trump, Paul Manafort, nas eleições da Ucrânia, onde trabalhou em favor do candidato pró-Rússia;
3) Um tuíte de outro ex-assessor de Trump, Roger Stone, antecipando a revelação pelo Wikileaks de documentos incriminadores obtidos contra Hillary, em teoria pelos russos;
4) A invasão dos computadores do Comitê Nacional Democrata por hackers russos, em que foram furtados os e-mails comprometedores do chefe da campanha de Hillary, John Podesta;
5) A mudança exigida pela campanha de Trump nos termos em que plataforma republicana tomava posição sobre a guerra na Ucrânia, para favorecer a Rússia;
6) A acusação que consta de um dossiê apócrifo (atribuído ao espião britânico Christopher Steele) de que o conselheiro da campanha de Trump Carter Page, conhecido pelos laços com a Rússia e pelo investimento na estatal russa Gazprom, recebeu uma “taxa de sucesso” pela venda de 19% de outra estatal russa de petróleo, a Rosneft, a compradores desconhecidos, que o dossiê insinua serem testas-de-ferro de Trump.

Nada disso, convenhamos, monta um caso sólido, capaz de comprovar a interferência do presidente russo, Vladimir Putin, na eleição americana. Há indícios que merecem ser investigados? Sem dúvida. Mas o depoimento de Comey não apresentou nenhuma nova evidência para confirmar as frágeis acusações que já constavam do relatório conjunto dos serviços de inteligência sobre as ações do governo russo, apresentado em janeiro. Tudo o que conseguiu foi manter no ar as mesmas dúvidas que existiam antes.

Na prática, Trump e seus aliados poderão argumentar que nenhuma prova concreta foi apresentada, que tudo não passa de especulação, que o FBI foi usado politicamente e que deveria, na verdade, investigar os vazamentos que têm alimentado o noticiário.

Comey, que já foi republicano e doou dinheiro às campanhas de Mitt Romney e John McCain, tentou transmitir uma imagem de equilíbrio partidário ao enfrentar o governo Trump, depois de ser acusado de virar as eleições em seu favor. Mas elucidou em definitivo apenas um único ponto: é descabida a acusação de que Trump foi espionado por Barack Obama.

Tanto Comey quanto Mike Rogers, o diretor da Agência Nacional de Segurança (NSA), foram taxativos ao negar qualquer escuta em Trump, como insinuava um tuíte do próprio Trump. Assessores do presidente disseminaram uma versão ainda mais estapafúrdia, segundo a qual os grampos foram feitos pelo serviço secreto do Reino Unido – negada pelos britânicos.

Trump e sua equipe poderiam simplesmente ignorar a investigação, dizendo respeitar a autonomia do FBI, ou tentar isolá-la a contatos irrelevante com os russos durante a campanha. Em vez disso, têm insistido no confronto. É a melhor tática para transformar em derrota política uma situação que no fundo lhes é favorável – afinal, sem apresentar provas, tudo pode ser classificado como insinuação. Ou então têm mesmo algo a temer.

G1

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