JPMotos
Fortaleza é a capital com mais homicídios por armas de fogo
26 de agosto de 2016 às 08:50
25
Visualizações

20160825170023_2392_capa

O Mapa da Violência 2016, relatório que agrega dados oficiais do País referentes a 2014, tratou dos homicídios por arma de fogo (HAF) e constatou: Fortaleza ocupa o primeiro lugar no ranking que elenca as maiores taxas de mortes. Além disso, o Ceará tem 20 municípios entre os 150 mais violentos do Brasil.

Os dados mostram que a capital cearense apresentou uma taxa de homicídios por arma de fogo de 81,5 para cada 100 mil habitantes no ano de 2014. Em números brutos, Fortaleza saltou de 422 óbitos deste tipo em 2004 para 2.026  – variação de 380%. Este último ano do recorte do Mapa da Violência foi quando a cidade viveu um pico de homicídios. É o que explica o sociólogo Ricardo Moura, do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Motivos

Segundo o pesquisador, a dinâmica de mortes intencionais provocadas por arma de fogo em Fortaleza é bastante complexa, mas ele aponta alguns dos fatores que fazem parte dela, como a expansão do tráfico de drogas, que passou a deter territórios maiores e a ter acesso a armas, o grande número de jovens entre a população da cidade (segundo o Mapa da Violência, pessoas entre 15 e 29 anos, principalmente homens negros, são a maioria das vítimas de homicídios por arma de fogo no Brasil), o crescimento urbano desordenado e o desenvolvimento econômico que provoca desigualdade.

“Em geral, as pessoas morrem em locais próximos de suas residências e em áreas de vulnerabilidade, precárias do ponto de vista de saneamento e acesso a serviços. Ou seja, já há uma realidade ali desafiadora para os moradores e, aí, entra o componente da violência, que gera uma devastação muito grande para uma área que já é bastante vulnerável.”

Ceará

No Ceará, esse tipo de morte violenta quadruplicou em 10 anos, passando de 916 em 2004 para 3.792 em 2014. Uma variação de 314%. Na proporção por 100 mil habitantes, o Estado tem a segunda maior taxa do Brasil: 42,9. Alagoas tem 56,1 homicídios por arma de foto por 100 mil habitantes. Entretanto, o Ceará vem aumentando os índices nos últimos anos, enquanto Alagoas apresenta redução.

O Estado também tem 20 cidades na lista com os 150 municípios mais violentos. Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) é a 5ª com maior número de HAF por 100 mil habitantes do País, com 93,4 mortes.

As outras cidades cearense do ranking são: Quixeré (12º), Itaitinga (17º), Tabuleiro do Norte (19º), Horizonte (20º), Jaguaribara (22º), Fortaleza (23º), Russas (32º), Aquiraz (33º), Chorozinho (65º), Maracanaú (72º), Senador Pompeu (74º), Pacajus (89º), Limoeiro do Norte (90º), Caucaia (93º), Quixadá (108º), Redenção (128º), Morada Nova (138º), Juazeiro do Norte (143º) e Redenção (147º).

Falha da polícia e da Justiça

De acordo com sociólogo Ricardo Moura, a incapacidade da Polícia Civil e da Justiça de acompanhar a profusão de crimes também contribui para essa realidade. “Nesse período, a Polícia Civil foi perdendo sua capacidade de investigar e de dar respostas mais rápidas e ágeis. Os crimes foram se sucedendo e a polícia não conseguia identificar autores, punir. Temos também um sistema judiciário ainda incapaz de dar conta dessa expansão de ocorrências. As estruturas do Poder Judiciário refletem uma realidade que hoje já mudou: temos as mesmas varas do juri e são poucos os processos julgados para a quantidade de crimes que ocorreram.”

Esse tipo de crime foi o que vitimou o irmão do empresário Fontenele Filho, 26, em 1999. Thiago Fontenele, de 21 anos, estava no carro e deixava a namorada em casa quando um homem armado disparou um tiro contra seu olho direito. “O executor não esboçou nenhuma intenção em abordá-lo. Simplesmente atirou.” Thiago ficou três dias internado e teve morte cerebral.

O assassinato de Thiago reflete a realidade apontada no estudo. Segundo Fontenele Filho, as investigações sobre a morte do irmão não chegaram aos verdadeiros autores nem à motivação do crime. “Teve muita investigação, mas com pouco resultado. À época, houve muita pressão da imprensa e a polícia trabalhou até como resposta à mídia. A gente tem convicção de que o resultado não foi real.”

Dados atuais

Embora retrate um cenário recente, o Mapa da Violência ainda não analisou os resultados das novas ações de combate ao crime em Fortaleza. Após 2014, a capital começou a apresentar sucessivas quedas no número de mortes violentas. Entre 2014 e 2015, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará, a capital reduziu 17% dos chamados Crimes Violentos Letais Intencionais. Entre janeiro e julho deste ano, a redução foi 37% se comparado com o mesmo período do ano passado.

“De 2015 para cá, começamos a ver um decréscimo dessas mortes, o que deverá ser observado no Mapa da Violência do ano que vem. No entanto, isso não significa que esta não seja uma situação chocante, que ultrapassa qualquer limite razoável de níveis de violência. Ainda que os números estejam caindo, eles são bastante altos e extrapolam os indicadores internacionais de violência e homicídios”, diz Ricardo Moura.

Os dados preliminares de agosto, por exemplo, mostram que houve 77 homicídios em Fortaleza até o dia 22. Desses, 70 foram ocasionados por armas de fogo. Os dados são computados pela Secretaria de Segurança.

Integração

Desde 2014, as forças de segurança do Ceará fazem um trabalho integrado entre as polícias Civil e Militar e o Corpo de Bombeiros que foi batizado de Em Defesa da Vida. Todo o estado foi dividido em 18 Áreas Integradas de Segurança, sendo seis em Fortaleza. Cada área tem metas de redução de crimes e os locais onde há ocorrências são georreferenciados, com informações sobre dia e horário dos fatos, para indicar possíveis ações de combate à criminalidade.

Segundo a secretaria, além da redução no número de mortes violentas, as ações do programa também possibilitaram a apreensão de mais de 10 mil armas nos últimos 19 meses.

Para o pesquisador, houve uma racionalização da ação policial no Ceará, com o melhor gerenciamento do efetivo e o estabelecimento de metas para alcançar os resultados. Quando foi criado, o Programa Em Defesa da Vida tinha como meta a redução de 6% no número de crimes violentos letais no estado.

“De três anos para cá, os resultados da ação policial passaram a ser mensuradas e o efetivo foi melhor distribuído territorialmente. Para que se possa ter um trabalho de política pública, é preciso criar métricas. Isso gera em pouco tempo um bom resultado e contribui para vermos a perspectiva de tendência de queda.”

Fonte: Diário do Nordeste

ComentáriosComentários